• Norton F. Corrêa

O MONSTRO SAGRADO

É uma pequena história do meu encontro com o saudoso, querido amigo, pai de santo e escritor João Carlos Deodé. Fico devendo um artigo maior, para a página, com mais dados e comentários sobre o que escreveu. Ele, sinceramente, merece.

O lançamento da 2ª edição do meu livro foi organizada por outro amigo, o Pai Rodrigo do Xapanã. Entre o pessoal da equipe estava o Deodé, como era conhecido..

O Rodrigo fez a ponte entre nós dois, me enviando, antes, dois livros que ele, Deodé, publicara. Amei.


"Nascera no batuque e escrevera contos sobre sua vida, vivências e convivências, desde menino, junto à comunidade batuqueira de onde morava, o morro do Partenon. Todos envolviam o batuque e o conteúdo misturava fatos possivelmente reais com outros, do chamado realismo-fantástico. Tudo muito bom, bem escrito e interessante. Logo o associei ao Jorge Amado, porque tinha o mesmo estilo de misturar o real com o fantástico, dizendo ao Deodé que o considerava o Jorge Amado dos Pampas.
Da equipe, foi ele o encarregado de me buscar, madrugadinha, no aeroporto. Tinha um Opala antigo, mas bem conservado que ganhara de seus muitos filhos de santo. Era um cara alto, magro, divertido e extremamente simpático. E o teor dos seus contos mostrava que não lhe faltavam fundamentos. Saquei de imediato que era gente fina, um sujeito muito legal e que ficaríamos muito amigos. Não paramos de rir e nos divertir durante o trajeto. Só fiquei com pena de ele fumar um cigarro atrás do outro.
Morava ainda próximo de onde nascera, com a mulher e um filho de uns 7 anos, numa casinha pequena e singela, de madeira, semelhante às que descrevia nos contos e as da vizinhança.
Fui recebido, além do muito carinho e hospitalidade, com uma deliciosa macarronada, que compensou de sobra a fome mal satisfeita com as coisículas de comer servidas no avião. Apesar, porém, do ótimo clima da receptividade, percebi que o casal estava um tanto tenso. Mais uma meia hora de papo e o sono bateu em nós três. Dormi no sofá da sala, onde estavam, num canto, as obrigações rituais do dono da casa, a cortina que as ocultava afastada para o lado, tudo iluminado por uma vela. Custei a fechar os olhos, contemplando aquele belo conjunto de imagens (nenhuma de santos católicos), alguidares com comidas sagradas, orixás de madeira em vulto, nada de ostentações. Lembrei do que ouvira dos velhos babaláus e babaloas que conheci: na simplicidade está o fundamento. Ao mesmo tempo, curtia a sensação de paz, tranquilidade e leveza que pairavam no ar. Acresça-se, o cheiro característico das obrigações, o ambiente dos templos de batuque, o que me trazia muitas saudades desde que me mudei para São Luís. Tudo isto me fazia muito feliz. Só acordei de manhã.
Tomado o café, fomos encontrar o grupo.
Foi chegarmos e o Deodé começou a contar para todo o mundo, como se estivesse muito surpreso, que eu dormira no sofá da sala, na casa dele, e comera macarrão. Mas quem ficou mais surpreso fui eu. Entretanto, penso que entendi a tensão que via no casal: certamente imaginavam que eu, com todos os títulos acadêmicos, autor de um livro apreciado pela comunidade batuqueira, me sentira diminuído e desapontado pela hospedagem que ofereceram. Claro que comecei a dizer exatamente o contrário, a verdade, para o pessoal, falando do carinho com que fora recebido, as boas sensações e alegrias que tivera. Então comentei comigo mesmo: Norton, olha lá, logo tu, que detestas chiquezas, gente metida a importante, gostas de conversar com todo o mundo e que te consideras e é considerado um cara simples, pelos amigos, ser tomado como monstro sagrado? Como se diz no Maranhão: Eu, heim?".

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